OS LADRÕES DO LIRISMO

Há um belo poema de João Cabral em que ele diz que o amor comeu seu nome, comeu sua identidade. 

Comentando futebol, aqui e ali, noto que o talento também vai nos roubando o lirismo, os adjetivos, as melhores metáforas.

É que mediante o grande talento, a linguagem vai se desgastando mesmo.

Talvez não tenhamos assim tantos bons romances sobre futebol porque o talento maior tende a ir nos deixando em silêncio. Mediante alguns gols, algumas jogadas sublimes, as palavras vão ficando irrelevantes.

Está em Camus, salvo engano, a ideia de que uma obra de arte, como a ideia de morte, nasce primeiro no pensamento. O gênio da bola parece ter compreendido isso mesmo sem jamais ter lido Camus ou outro filósofo.

Ele sabe o quanto a obra de arte é necessária para o espetáculo, e que talvez seja a única maneira de se driblar a morte.

Somente a obra de arte fica, eles parecem saber, quando todos nós já tivermos ido embora. Há uma sabedoria de vida no grande atleta que irreleva grandes livros. E que deriva apenas de uma observação atenta.

Eles sabem que essa obra de arte é a junção de vários roubos. Então, tratam de ir afanando: o tempo, a noção de lógica, o lirismo dos grandes poetas, e mesmo a ideia de gravidade.

Nesse sentido, o talento maior é implacável.

O Chico Anísio dizia que o futebol é um esporte de poucas emoções. E de uma maneira geral, estava certo. Mas a rara catarse proposta nos quarenta e cinco do segundo tempo faz valer todo o espetáculo.

Craque é aquele que domina o senso de glória. E reveste sobre si todo um festival de aplausos.

E após presenciarmos tudo isso, escrever a respeito não é o mais difícil. Caçamos novamente o lirismo. Damos um jeito de arrumar todas as metáforas roubadas de volta.

É a nossa maneira de, extasiados com o espetáculo, dizermos muito obrigado.

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