LA TIERRA COLORADA

Qualquer garoto crescido em alguma comunidade do Brasil, sem que precise saber uma única linha de espanhol, entende perfeitamente as palavras do técnico do Paraguai (que é conhecido por um tipo muito próprio de verborragia metafórica) depois da dramática classificação que conseguiram ontem.

Poucas coisas tem a beleza daquela terra vermelha, que ou pairava no ar, a cada pisada numa corrida em direção ao gol — e coloria uma camisa branca com infinitos grãos alaranjados — ou se fazia lama, deixando o meião irreconhecível, quando não o garoto inteiro.

E não havia meio termo: ou era um sol escaldante ou era a chuva, que banhava a terra pela madrugada, preparando o palco da diversão (as poças) da manhã seguinte. E tinha o frio também, quando a areia virava um barro duro, em que os cravos da chuteira, a cada passada, se fincavam e ficavam no chão como desenho.

Qualquer garoto brasileiro, ou sul americano em geral, entende perfeitamente isso. Sabe da apreensão de não dormir de madrugada esperando o jogo do dia seguinte, em que o time do seu bairro, em algum campo de terra, enfrentaria o de outro bairro em algum campeonato organizado pela prefeitura.

Uma “mezcla de sangre y de utopía”: o garoto médio brasileiro sabe exatamente o que isso significa — o que é sonhar com algum olheiro em algum desses campos o reparando e o levando pra fazer teste em algum clube grande ou mesmo mediano.

A fala do técnico do Paraguai não foi feliz apenas na forma, foi feliz no conteúdo, porque de fato a vida nunca foi exatamente fácil para a maioria do povo do Sul. O povo que, liderado pelo continente Brasil, detém o maior número de sagrações na história do maior torneio do maior esporte.

A vitória de um de nós não é simplesmente, como normalmente é o caso, a vitória calculada, a vitória prevista. É a vitória do espírito, a vitória desacreditada. A vitória do homem contra o mundo e contra si mesmo. A vitória da paixão.

O Brasil, no passado, esteve numa guerra contra o Paraguai. Esse é um bom momento pra se lembrar de que, nas entrelinhas da maior parte das guerras, existem mais semelhanças do que diferenças.

“Las utopías no se rinden”: parabéns, Paraguai.

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