Alguns dos jogos de Neymar foram a minha primeira experiência (já na fase minimamente racional da vida) de que estava diante de um craque, uma sumidade, alguém que jogava outro esporte.
O gol rabiscando todos contra o Internacional, as soberbas apresentações na Libertadores, as provocações, as brincadeiras, as pernas que sorriam diante do perigo iminente, os lances fatais que destruíam os outros times. E me lembro dos que criticavam seu estilo, seu jeito de jogar, seu excesso de talento.
Odiado por ser perfeitamente brasileiro, Neymar foi o bode expiatório, de 2010 até 2026, das derrotas brasileiras. Em 2010, a culpa foi a sua ausência. Em 14, sua lesão foi um dos motivos do desequilíbrio mental que nos levou ao maior vexame da nossa história. Em 18, recaiu sobre ele a culpa, chamado de cai-cai. Em 22, assim como em 26, não poder ter batido um pênalti foi o assunto da vez.
Durante 16 anos a Seleção orbitou em torno de Neymar. E não me digam que ele não correspondeu. Sempre foi o único que parecia se preocupar, puxar o jogo, chamar a responsabilidade, buscar a vitória a qualquer custo.
Nesta copa, fui contra a sua convocação. Estava errado. Vimos o que ele fez: um gol nos seus últimos minutos de uma Copa do Mundo, um fim melancólico para um dos últimos — tomara que não o último — que jogam como um autêntico canarinho, encantando, driblando, levitando pelo campo.
E agora? Acabaram-se as desculpas. O bode expiatório cedeu o pescoço para a degola e encerrou o ciclo de sacrifícios. Ou elegerão um próximo ou criarão vergonha na cara.
A Seleção perdeu para si mesma. Sua falta de vontade, sua ausência de força anímica e sua preguiça a fez ceder a bola, o campo e a vitória a um time claramente mais fraco, com menos peças, menos tradição — mas com mais clareza de seus objetivos.
É o fim, então, de uma geração fracassada. Que não só perdeu, mas foi derrotada das maneiras mais amargas e covardes da nossa história. E perderam a copa mais favorável para a vitória dos últimos anos.
E é o fim, também, de Neymar na Seleção — o último dos brasileiros.
