Publicado em O Globo, 18/11/1963
Amigos, vocês se lembram da vergonha de 50. Foi uma humilhação pior que a de Canudos. O uruguaio Obdulio ganhou de nosso escrete no grito e no dedo na cara. Não me venham dizer que o escrete é apenas um time. Não. Se uma equipe entra em campo com o nome do Brasil e tendo por fundo musical o hino pátrio — é como se fosse a pátria em calções e chuteiras, a dar botinadas e a receber botinadas.
Pois bem. Depois da experiência bíblica de 50, passamos a rosnar, por todas as esquinas e por todos os botecos do continente, o seguinte juízo final sobre nós: — “O brasileiro é bom de bola, mas frouxo como homem”. É o que diziam, sim, de nós, com feroz sarcasmo, os craques da Argentina e os craques do Uruguai. Até que vem aquele famoso Campeonato Sul-Americano de 1959. Há o jogo Brasil x Uruguai. E, de repente, estoura um sururu monstruoso. Brigaram até as cadeiras.
Foi uma página de Walter Scott. O próprio Chinesinho, com o seu tamanho de anão de Velasquez, levou e deu bordoada. Lindo, lindo foi quando Didi tomou distância, correu e saltou. Por um momento ele se tornou leve, elástico, acrobático. E enfiou duas chuteiras em flor na cara do inimigo. Quando parou a guerra e continuou o jogo, demos um banho de bola. Ora, há uma nítida relação entre a passividade de 50 e a agressividade do tal Sul-Americano. As duas coisas estão ligadas e uma justifica a outra.
Certo e brilhante confrade dizia-me ontem que “futebol é bola”. Não há juízo mais inexato, mais utópico, mais irrealístico. O colega esvazia o futebol como um pneu, e repito: — retira do futebol tudo o que ele tem de misterioso e de patético. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural. Eu diria ainda ao ilustre confrade o seguinte: — em futebol, o pior cego é o que só vê a bola.
Faço a meditação acima para justificar a escolha do meu personagem: — Almir*. Alguém dirá que Almir é um delinqüente irrecuperável. Amigos, vamos reexaminar o problema. “Ser ou não ser delinqüente”, “ser ou não ser paranóico”, eis a questão. Mas os mesmos que agora exigem a cabeça de Almir, como se ela fosse a de Maria Antonieta, gostam muito de Didi. Eu próprio tenho por Didi uma admiração de macaca-de-auditório. Dei-lhe o nome de “Príncipe Etíope de Rancho”. Mas já diziam os acácios e os pachecos da crônica: fato é fato. E Didi, conforme todo mundo sabe, quebrou a perna de Mendonça.
Estava lá o Armando Nogueira. Ora, o Armando é um lúcido, um sensível e, sobretudo, um justo. O Otto Lara Resende vai mais longe e jura que esse nobre confrade é o único pastor protestante escocês que jamais existiu. Eu pergunto ao pastor escocês que há no Armando se ele, Armando, usou a ênfase de um Moisés ou a ira de um Zola para chamar Didi de “paranóico” ou de “delinqüente”.
Há mais. Ainda o meu amigo Armando Nogueira viu quando, há tempos, Amarildo quebrou Jair Marinho, do Fluminense. Lá saiu o esplêndido zagueiro de maca, e quase de rabecão. O Armando, que é, repito, um justo, foi testemunha ocular e auditiva do fato. Digo “auditiva” porque ele “ouviu” o som inequívoco da fratura. Jogavam Botafogo x Fluminense e um autêntico alvinegro foge do túmulo para ir torcer.
Não lembro o que escreveu o Armando a respeito. Amigos, ando sofrendo freqüentes lapsos de memória. Mas suponho que o pastor protestante escocês tenha aproveitado a chance para taxar o “Possesso” de “delinqüente” e de “paranóico”. E se poderia citar dezenas, centenas de exemplos. O match Chile x Itália, em 62, foi canibalesco. Os adversários só faltavam chupar as carótidas uns dos outros. Em 58, no match Suécia x Alemanha, os 22 jogadores agrediram-se a dentadas.
Nós é que vamos exigir, de um jogo de futebol, a cerimônia, a polidez, a correção de uma sessão da Câmara dos Comuns? O meu amigo Armando Nogueira se horroriza com o meu personagem da semana como se este tivesse inaugurado o foul no futebol. Se o jogo fosse só a bola, está certo. Mas há o ser humano por trás da bola, e digo mais: — a bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe. O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão. E o lindo, o sublime na vitória do Santos é que, atrás dela, há o homem brasileiro com o seu peito largo, lustroso, homérico.
O Santos é uma equipe assassinada, e repito: — assassinada pela inépcia e desumanidade de seus dirigentes. Nenhuma equipe terrena pode jogar tanto sem se morrer. E, contra o marcadíssimo Milan, o glorioso time ruía aos pedaços, estrebuchava, agonizava. Nunca houve cansaço tamanho. E, apesar disso, ganhou do Milan na mais linda reação que se conhece. Ganhou duas vezes. Por que agredir a vitória não de um time, mas do homem brasileiro? Por que esse ressentimento inconfesso, mas nítido, contra o Santos? Mas voltemos ao meu personagem da semana. Teve uma grande e cálida atuação no feito brasileiro. Será “paranóico” porque chutou Amarildo? E Didi, e o próprio Amarildo, e tantos outros? Por justiça, o meu amigo pessoal Armando Nogueira devia aparecer na boca de cena para declarar: “Meus senhores e minhas senhoras. Só vejo paranóicos na minha frente”.
