De uma maneira geral, sou um grosseirão. Falo alto, coloco os cotovelos sobre a mesa, como carnes com as mãos. Mas como nenhum homem é uno, pratico a eventual sofisticação de também ser vários.
Para algumas áreas do pensamento e das ações humanas: a rara elegância. Foi o que notei no Brasil e Haiti, em parcos, mas precisos lances.
A elegância faceira, eu diria até mesmo involuntária. Uma espécie de elegância instintiva.
Em leitura, gosto de alternar Truman Capote e Fitzgerald. O fraseado que parece escrito e reescrito até soar merecedor de elogios como sublime.
No jogo do Brasil, me lembrei desses jogadores que seguem essa premissa vital: algo na grande elegância paralisa o adversário.
Vini Jr. jamais falou algo requintado em sua vida. Em notícias públicas, é a anti sofisticação.
Mas é pegar na bola, é dominá-la antes de bater para o gol, e notamos o talento rareado. O fraseado de um Fitzgerald adaptado a uma ação esportiva.
O passe preciso. O toque fatal que parece coordenado por um diretor exigente — um David Lean que brilhava fosse nos momentos pequenos, fosse nos quadriloquentes.
Cristiano Ronaldo é assim. Mbappé não fica atrás. Messi, nesse quesito, é um modelo máximo.
A característica essencial do talento contemporâneo da bola é um pouco essa: adapta o espírito da elegância artística sem sequer conhecê-la.
Quando nos pedirem uma definição desses talentos, podemos dizer, em uníssono: são como inegáveis literatos sem livro.
E a catarse que provocam, não raro, é a mesma da grande arte.
