Não sei se foi Fulton Sheen, Groucho Marx ou alguma página do Instagram que disse que toda preocupação é uma espécie de ateísmo. Claro, se você crê na providência divina e se preocupa com a sua vida, em algum grau sua fé está abalada.
Eu digo mais: qualquer pessimismo em relação à conquista do Hexa é atestado de vira-latismo.
A Seleção e seus jogadores são, de um modo ou de outro, o mito fundacional do maior esporte do mundo; nossas vitórias são marcos históricos, nossos maiores jogadores são semideuses, Pelé é um titã ao modo grego.
Deste modo, nossas derrotas são somente instrumentos narrativos, preparações para as peripécias que revelarão o nosso retorno glorioso. Se perdemos, é porque Ulisses precisou passar pelo Hades. Se somos desclassificados, é porque Jonas foi engolido pelo grande peixe.
Por isso, nossa vitória é inevitável. Faz parte dessa jornada que se repete desde os princípios do mundo e a História mostra que é impossível contorná-la. Hórus, depois de crescer em segredo, derrota Set; Eneias vence Turno e funda o povo romano; Ulisses revela a morte aos pretendentes de Penélope.
As seis estrelas logo estarão no peito de cada brasileiro e buscaremos a sétima.
Aquele que não confia nisso precisa começar a se perguntar: o que devo mudar na minha vida? Devo parar de tomar banho diariamente e começar a feder a Vick Vaporub com peixe? No almoço de domingo, devo comer comida enlatada ou uma bela macaxeira com carne de sol?
O vira-latismo é a doença que incendeia a mente dos brasileiros desde sempre.
Digo: qualquer racionalismo precisa ser rejeitado. Não foi o ciclo de 2002 o mais conturbado da história? E em 94, não teve o Brasil dificuldades contra, bem dizer, quase todos os times? Vencendo na raça, no gol no final, no pênalti perdido, apelando para a genialidade de uns poucos — e também para a sorte?
Não há espaço para a razão no futebol, que muito a transcende: o que existe é magia, mística do esporte, força mítica e destino.
Seremos.
