Eu teimo em querer acreditar que futebol não seja destino, que se ganhe com os pés. Brigo comigo mesmo, reluto em dizer que não, me contrario e renego a chance — mas sou vencido.
Quando vejo a foto do Yamal bebê sendo segurado pelo jovem Messi numa banheira, e os dois se encontrando depois, cada um a seu lado, na final do maior torneio da terra, é como se me gritassem: “olha o destino aí!”.
Não que não exista o arbítrio humano, a capacidade do homem de pegar o corpo da vida nos braços e determinar pra onde vai, de ditar os rumos que quer pra si — a responsabilidade, o fazer escolhas, o sujar as mãos. Tudo isso existe, e é verdadeiro. Mas até certo ponto.
Há também algo maior, alguma coisa superior, alguma coisa mais potente do que a capacidade humana de decidir. Algo mais forte do que a força humana, que decide contra ela os seus rumos, que vira as costas pro seu desejo.
O sofrimento, por exemplo. A derrota. Ninguém pede por sofrimento, ninguém o deseja, ninguém almeja a derrota — mas poucas coisas tem a capacidade de talhar e transformar os rumos da vida, pra mais profundo e mais verdadeiro, para mais forte, quanto eles.
(A não ser que você seja um conformado em perder, um desistente, como a nossa Seleção, que copa após copa parece estar se tornando isso. Aí o sofrimento não significa nada, a humilhação e a derrota serão só mais um dia no calendário e vida que segue).
Ulisses não pediu por um Hades, mas precisou passar por ele em seu caminho de retorno a Ítaca. Como Riobaldo, que foi sacodido pelo imprevisto de tal modo, no Grande Sertão, até completar a travessia e compreender o mistério de Diadorim.
Destino. Conexão com o maior, com a vontade que nos coloca em silêncio.
Cada qual chama como quer: acaso, providência, fortuna, etc. Eu particularmente gosto de “destino”, mesmo: um ímpeto que se impõe, um fio que se desenrola quer você queira quer não queira.
O que tem ele reservado? Quem, da foto da banheira, se sagrará o herói? Como qualquer brasileiro que se preze, não preciso dizer pra quem estarei torcendo. Resta saber se estou, ou se não estou, contrariando a vontade que não vejo.
