DOUGLAS SANTOS, O CORRETO

Falar é importante. Dar voz ao verbo, fazer som ao dom da palavra, é extremamente importante. Mais: é essencial à vida. Mas mais importante do que falar, é saber ficar quieto. Poucas virtudes tem o peso de serem fortes como a daquele que sabe calar.

Como bom falador, daqueles incuráveis, demorei muito pra entender isso, e sei, embora ache que esteja aprendendo, o quão difícil é conter a língua. Me admiro muito, por isso, daqueles que sabem ficar quietos: que falam sem dizer, que cultivam o silêncio — e que, quando dizem, falam a palavra certa, a frase exata no momento preciso.

Curiosamente, as pessoas que mais gosto de ouvir são as que normalmente não falam muito — as que, no geral, por contraditório que seja, são as que mais tem a dizer.

O provérbio, nesse sentido, como a sabedoria bíblica em geral, é fatal: “até o tolo, quando se cala, é tido por sábio; e o que fecha os lábios, por homem de entendimento”.

Os pastores da minha igreja, por exemplo, são assim, e os admiro, entre outras coisas, em grande medida por isso.

Pois bem: o jogador que mais me admira na Seleção atual, e nessa copa — o que mais se parece aos homens grisalhos da minha igreja —, é o Douglas Santos.

Não diz um A. Não lembro de uma entrevista sequer sua. Não lembro de uma dancinha, uma polêmica, nada: entra mudo e sai calado — e faz o seu trabalho, o básico feijão com arroz, como um genuíno operário da bola, como poucos sabem fazer.

A discrição é a sua marca: como o sangue, que corre nas veias sem ninguém pedir ou se lembrar, mas sem o qual morreríamos todos sufocados. Ou como o bom juiz: mudo, irrespondível, letal.

Eu gosto dos Romários e dos Ronaldos, dos Vinícius — gosto muito. Daqueles que se afirmam, que se impõem, que desafiam, que são estrela. Gosto também dos laterais rebeldes, que se arriscam, que avançam, que se expõem: dos Roberto Carlos, dos Cafus, etc.

Mas gosto mais, confesso, dos Douglas Santos, que não precisam de trombeta. Dos laterais corretos. Dos silenciosos. Daqueles que trabalham, pegam as suas coisas e vão embora.

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