A MÁ POESIA DA DERROTA

Algumas falas ficam na nossa cabeça mais do que gostaríamos. Escrever é como reagir a elas. Mas especialmente, é uma tentativa de deixá-las ir embora.

Pegando um Uber de volta pra casa ouvi o treinador do Palmeiras, Abel Ferreira, dizer que o futebol estaria doente. Que ao futebol só interessaria vitórias.

Quis o Abel dizer que há, talvez, uma estética de cassinos pairando no futebol moderno. Barganhas, contratos, dinheiro, apostas, e sobretudo, obsessão com vitórias.

Achei curioso que o treinador só se demonstrasse antipático com a última parte da equação.

A indústria esportiva que fez um profissional atravessar o Atlântico para receber três milhões por mês não foi minimamente problematizada, ele, que estava tão afim de problematizar coisas.

O futebol, hoje, é um negócio dos mais lucrativos do mundo. Parte do tédio que alguns jogadores sentem com a seleção se dá pela glória, sucesso, e dinheiro que já alcançam em clubes.

Se tem alguém que perde com a industrialização doentia do futebol é o torcedor médio, de fones de ouvido, sofrendo com paixão e pagando dinheiro do bolso quando todos ao redor lucram montanhas e ainda nos mandam ideais de falsa poesia da vitória.

O futebol moderno é um cassino onde as apostas e as vitórias possibilitam salários como o do treinador Abel. Penso que as vitórias é o mínimo que devem entregar em troca de tantos ganhos. Que cassino curioso é esse que o treinador tem em mente em que o quinto ou sexto colocado ganha alguma coisa?

Em um Cassino interessa o primeiro lugar ou nada.

Mesmo a opinião futebolística tem se rendido ao fascínio do clique e do like. Comentaristas futebolísticos andam abdicando de estilistas cautelosos como o Tostão, e de sua paixão pela análise, para unir futebol com o lado mais sujo do cassino da opinião: a política.

Aí vem o clique fácil, a polêmica vulgar, o identitarismo da moda.

Gostaria que o treinador assumisse seu papel de soldado de uma indústria bilionária e deixasse a poesia da derrota e da vitória aos raros cronistas líricos que ainda restam.

Ele definitivamente não é do ramo.

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