Quem Somos
O Alambrado, Canal e Revista de Futebol e Cultura, é um projeto que nasceu ao mesmo tempo do desconforto e da falta: o desconforto com relação a uma espécie de pasteurização e uniformização da linguagem e da estética no universo do futebol nacional, e a falta de algum veículo que ocupasse esse espaço, com conteúdo que fosse, ao mesmo tempo, relevante na dimensão da informação, mas também, e principalmente, na dimensão da cultura e da arte.
Isso porque o futebol não é apenas o que ocorre no campo, enquanto o jogo acontece, de si para si, no seu próprio universo – ele é também a forma como repercute nas outras dimensões da vida, como se relaciona com elas, assim como o olhar com o qual é retratado pela arte nas suas diversas linguagens, a começar pela literatura, pelo ato da palavra.
O futebol, que também é arte, sempre foi amplamente retratado e celebrado, ao longo da sua história no Brasil, por grandes figuras do universo cultural do país: da imprensa aos palcos e à academia. Ocorre que isso foi sendo substituído, com o tempo, por um tipo de abordagem distante da emoção do jogo, por uma frieza vendida como “jornalismo sério” e “analítico”, que levou a imprensa esportiva do país para um lugar muito diferente do que ocupou no passado, quando era mais do que mera veiculadora de informações, mas um ambiente de valorização da cultura e do talento nacionais.
Pois bem, o Alambrado surge como um veículo que se pretende exatamente isso: mais do que simplesmente um veiculador de informações, um espaço de valorização da cultura e do talento nacional em todas as suas dimensões, a começar pelo futebol e pela literatura e se estendendo a todas as outras esferas pelas quais a cultura se expressa: da música ao cinema.
Aqui, existe o fundamental e necessário compromisso com a informação, mas, tanto quanto isso, há também um profundo compromisso com a formação: a formação de um público que esteja em permanente contato com material, novo e antigo, de muita qualidade, tanto em forma quanto em conteúdo.
A razão maior de ser do Alambrado é essa: conectar leitores e espectadores com bons escritores e produtores. Conectar o público do futebol em geral com o que de melhor, a partir da relação com o jogo, o Brasil produziu e, ainda hoje, produz. Assim como de revelar e fazer conhecidos os muitos talentos, principalmente literários mas não só, espalhados por todos os cantos do Brasil — numa tentativa de fazer renascer, em alguma medida, a grande tradição do cronismo e da literatura esportiva nacional em geral.
Não que você vá encontrar por aqui um novo Nelson Rodrigues ou João Saldanha, mas você sempre vai encontrar gente de verdade, que acredita no poder da palavra e que zela pelo bom cultivo dela, escrevendo para gente de verdade.
O Alambrado também se pretende, além de um veículo para a publicação de textos escritos, um produtor de conteúdo audio-visual nos mais variados formatos e maneiras de se fazer, que vão do documentário cinematográfico tradicional até entrevistas, lives, podcasts, vídeos mais curtos explorando curiosidades, cobertura de eventos, resenha de rua, etc. — sempre pautados por esse olhar que procura enxergar as relações do jogo não apenas consigo mesmo, mas também com o que não é o jogo, com as outras esferas da vida, que o cercam e são parte importante do que ele é e de como se faz.
O projeto é uma idealização de Samuel Ricardo (paulista, escritor e estudante de Filosofia) e de Felipe Portella (carioca, ator e estudante de Jornalismo), e conta com a colaboração de inúmeras pessoas espalhadas pelo país, seja como autores convidados, seja através do compartilhamento em diferentes círculos ou, simplesmente, com o apoio e incentivo à iniciativa — todas elas pessoas que, assim como nós, acreditam na importância da relação do futebol com a cultura e na necessidade de valorização das tradições e do talento nacional.
Você é extremamente importante e uma das principais razões de ser deste canal. Fica por aqui e participe dessa jornada com a gente.
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MANIFESTO – por Samuel Ricardo
Alambrado é o nome que se dá, em português, no contexto do futebol, à estrutura, normalmente em arames, que separa o campo da arquibancada. É o limite entre o que é o jogo e o que passa a ser impressões sobre o jogo, como uma quarta parede, ou a cortina que, no teatro, separa o palco da plateia.
E ao mesmo tempo que limite, que divisor, ele é também o ponto em que essas duas coisas se encontram, em que elas se alcançam e se misturam – o que está dentro e o que está fora.
Alambrado é o elo, é o ponto de passagem: em que futebol e mundo se tornam um, em que a bola e o gramado, e os artistas que pisam nele, conversam com o público que os assiste, ecoando neles e a partir deles.
Alambrado é o futebol em suas formas varias, quando ele deixa de ser apenas trave e rede, suor e pernas, ou cal, e se alarga: fazendo-se cultura.
Alambrado, ainda que seja também metal, dos arames que se entrelaçam, é principalmente respiro e vida – real, não artificial.
O cronismo esportivo das redes sociais, hoje, pelo menos na dimensão dos grandes perfis, via de regra é basicamente copia e cola de IA, no máximo com algum trabalho de revisão. Supostos textos não escritos por ninguém, mas ditados por máquinas que não veem, não escutam, não torcem, não sentem.
E na grande imprensa, nos veículos maiores, em que pese um ou outro respiro de vida, que ainda existe excepcionalmente num ou em outro lugar, impera no geral uma morbidez e um grande vácuo criativo.
O futebol brasileiro, e os personagens que fazem dele ser tão especial quanto é, merecem mais do que isso.
Ficou perdido, em algum lugar do passado, o tempo em que os grandes poetas e escritores do país, e os grandes personagens da cultura nacional, escreviam e cantavam sobre o jogo, sobre a sua paixão pelo jogo. Essa tradição não morreu, ela apenas está dispersa, e vai se reajuntar.
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